Na maioria absoluta das publicações sobre a escola pública, as dificuldades aventadas pelos críticos são específicas dos problemas crônicos do antigo ginásio, que permanecem no ensino fundamental, a partir da 5ª série. A alta mobilidade dos professores, o excessivo número de classes e de alunos diferentes, a desvinculação do professor da escola, além de outros problemas referentes aos currículos e elementos burocráticos, inviabilizam um adequado acompanhamento dos alunos. Embora haja muita pressão para ser evitada, a reprovação ainda atinge significativas porcentagens, principalmente porque a introdução em um sistema completamente diferente, fundamentado em dados colhidos nas mazelas do antigo ensino secundário e imposto de maneira abrupta, dificulta a adaptação do aluno. Isto ficou deveras expresso, num artigo de Rose Neubauer,[1] então Secretária de Educação do Estado de São Paulo, no qual ela afirma que “o bom professor, pasme, era aquele que reprovava muitos alunos. O saber era propriedade de uma elite. O caminho para atingi-lo era o mais inóspito possível”. Todavia, colocar o antigo ensino primário paulista na mesma situação é, no mínimo, ignorância ou desprezo pela história de uma instituição, na qual, o status da professora era medido pelas aprovações e não pelo número de alunos reprovados. Além do mais, falar que o saber “era propriedade de uma elite”, no ensino primário, é também ignorar que os alunos das atuais favelas das grandes cidades eram os alunos que aprendiam a ler e a escrever, em grupos escolares e escolas isoladas instalados da zona rural, graças ao esforço de professores e professoras que tinham a coragem de enfrentar as condições desfavoráveis, da época. É lamentável que uma Secretária da Educação ignore um recente passado que poderia ser descoberto com a simples leitura dos escritos do professor Azanha,[2] testemunha e participante dessa realidade, quando a administração Ulhoa Cintra tentou alterar as normas do ensino secundário onde o saber, na época, “era propriedade de uma elite”.
“A resistência do magistério secundário foi de tal ordem que obrigou a Administração a uma providência radical, na época extremamente combatida, de responsabilizar o professor pela reprovação do aluno – uma coisa banal que, na escola primária, sempre havia sido feita. (…) No final de 1968, os índices previstos de reprovação no ginásio eram de 85% a 90% na primeira série, ou seja, aquilo que era uma política de Educação estava sendo pedagógica e equivocadamente anulado no âmbito da escola. Para corrigir essa situação, a Administração lançou mão de uma medida radical, na época, que foi a de atribuir pontos por alunos aprovados, que pesavam na futura escolha de aulas pelo professor. Isso sempre ocorreu no ensino primário. Não era medida inédita no Estado de São Paulo, era inédita no ensino secundário”. (Os grifos são meus)
Na verdade, é da 5ª série em diante o espaço onde se concentra, até hoje, verdadeiramente o problema das reprovações e evasão. Isto também ficou patente no “Senso Educacional 2000”, divulgado em 27 de agosto de 2001, como resultado positivo das providências levadas a efeito pelo MEC. Seria, pois, importante e necessário haver maiores cuidados na seleção e interpretação de dados sobre educação. Mais cuidado ainda, com as referências e resultados de estudos realizados no ensino fundamental, porquanto é, com certeza, inadequado confundir ou igualar o ensino realizado nas primeiras séries e nas séries finais. Haja vista que o próprio MEC, em suas avaliações, faz essa distinção, corretamente. Uma revisão feita nas estatísticas do Ministério da Educação, por C.M. Castro,[3] desmente afirmações insertas no artigo de Rose Neubauer e faz cair por terra o mito da evasão escolar.“As últimas estimativas mostram que apenas 1,9% dos alunos, inicialmente matriculados na primeira série, deixa de chegar à segunda. Não há virtualmente evasão na primeira série. Mais ainda, a evasão é mínima na segunda e na terceira séries. É só a partir da quarta que começa a haver uma deserção importante (18,4%)”O que levou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo a separar as escolas de 1º grau, reunidas por determinação da reforma do ensino que instituiu a escola de oito anos, mostra muito bem que é preciso aceitar, de uma vez por todas que, embora estejam novamente, teórica e legalmente, unidas pela atual LDB, há dois sistemas diferentes em duas escolas distintas, dentro do ensino fundamental.
[1] Artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”, em 07/10/2000.
[2] Embora tenha citado o prof. AZANHA, com certeza, não leu o trecho transcrito do livro Educação – Alguns Escritos, Nacional, 1987.
[3] CASTRO, C.M. Educação Brasileira, Rocco, 1994.
Escrito por carlosdemorais
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