Evasão e reprovação – um sério desacordo

Para aqueles que se julgam num patamar tão elevado do saber, está sendo muito difícil admitir que todo modelo de intervenção em escolas, baseado no conhecimento externo de especialistas, tende a retirar o poder e a criatividade dos professores, pois, como lembra S.T.S. Penin, “a aproximação da educação com o saber científico sempre representou um desconforto, dado que ele nunca esgotou ou equacionou devidamente os fenômenos educacionais e do ensino”.

Sob pena de ver todos os esforços perdidos, nas escolas públicas de São Paulo, com sérias consequências para o ensino, as professoras mais experientes continuam se afastando da docência nas primeiras séries; problema que vem se agravando devido à implantação da chamada “progressão continuada” que, em sua elaboração, ignorou-se por completo a experiência do antigo ensino primário. É preciso deixar bem claro que não se discute o mérito ou a propriedade ou o conteúdo destas idéias sobejamente conhecidas que, disfarçadamente, baseiam-se no raciocínio econômico do desperdício, como se aluno fosse mercadoria.

O MEC insiste na grande perda que sofrem União, Estados e Municípios, graças à evasão e repetência no ensino fundamental. Embora já tenham sido constestados esses dados como produto de distorções estatísticas, eles continuam em vigor.Todavia, como é costume implantar projetos sem que sejam adequadamente explicados, amplamente discutidos com os professores e devidamente assimilados, o que se discute é justamente a maneira pela qual tais idéias são levadas às salas de aula e os fatores motivadores destas intervenções.

Em uma pesquisa entre professoras de 1ª a 4ª séries, do ensino fundamental, realizada pela revista ISTO É, constatou-se que mais de 90% rejeitam o sistema de progressão continuada. Diante disso, como obter sucesso com alguma proposta cuja implantação não contou com a participação de seus executores, isto é, dos professores esquecidos nas salas de aula?

O malogro anunciado está sendo ignorado pela SE do Est. de S.Paulo que, como sempre, além de implantar o sistema compulsoriamente, ainda se baseou em dados colhidos nas mazelas do antigo ensino secundário. Isso ficou deveras expresso, num artigo de R.Neubauer, ex-Secretária de Educação, publicado na “Folha de São Paulo”, no qual afirma que “o bom professor, pasme, era aquele que reprovava muitos alunos. O saber era propriedade de uma elite. O caminho para atingi-lo era o mais inóspito possível”.

Todavia, colocar o antigo ensino primário na mesma situação é, no mínimo, ignorância pela história de uma instituição que primou pelo esforço em ensinar, com pequeno percentual de reprovações e evasão, porque o status das professoras primárias, ao contrário dos professores secundários, era medido pelas aprovações e não pelo número de alunos reprovados. É deveras lamentável que uma secretária de educação ignore ou menospreze um recente passado que poderia ser descoberto com a simples leitura dos escritos do prof. Azanha, testemunha e participante dessa realidade, quando a administração Ulhoa Cintra tentou alterar as normas do então ensino secundário.

Segundo o prof. Azanha (aliás, citado no artigo da secretária), no final de 1968, os índices previstos de reprovação no ginásio eram tão altos que estava, equivocadamente, sendo anulada, no âmbito da escola, uma política de educação.

Este fato, acrescido da resistência do magistério secundário, “obrigou a administração a lançar mão de uma medida radical, na época, que foi a de atribuir pontos por alunos aprovados, que pesavam na futura escolha de aulas, isto é, responsabilizar o professor pela reprovação do aluno – UMA COISA BANAL QUE, NA ESCOLA PRIMÁRIA, SEMPRE HAVIA SIDO FEITA”.

Deixe uma resposta