Uma medida estranha

Um dos argumentos mais significativos utilizados pelos decifradores da “progressão continuada” consiste na reprovação, praticada como “instrumento disciplinar”.

De fato, embora houvesse preocupação constante com alunos de aprendizagem lenta, em todos os tempos, no antigo ensino primário. a reprovação, em gral, acabou se revelando como “punição” para alunos tidos como “faltosos”, “preguiçosos” ou “vagabundos” ou “indisciplinados” e, como tal, passou a fazer parte da cultura escolar.

Embora sejam procedentes as críticas feitas às reprovações (críticas que se repetem historicamente!) e haja viabilidade em contornar seus resultados negativos (medidas que também se repetem historicamente!) não se pode, impunemente, ignorar uma tradição cristalizada não só em todas as escolas, como também na propria sociedade.

Como não adiante mascarar a desigualdade social, a avaliação se torna inevitável e tem seu protótipo na merdadoria que tem custo. Vale lembrar, escreve P.Demo, que em Santa Catarina (1984) havia promoção automática, até o dia em que se realizou o processo de avaliação, com participação da comunidade, não só de educadores.

Sobretudo os pais postaram-se contra, porque raciocinam de modo dito objetivo e realista: no mercado não há promoção automática, lá vence que pode. No quadro das desigualdades, a promoção automática desprepara para a vida, embora caiba em belas teorias educacionais.

Além disso, eis alguns conselhos oferecidos por Bill Gates, a alunos de 11 a 15 anos, em uma escola dos Estados Unidos, apontando certas incompatiblidades entre as práticas existentes em escolas e a real organização social vigente naquele país. “Em algumas escolas você não repete ano e tem quantas chances precisar até acertar e ser promovido. Isto não se parece absolutamente nada com a vida real. Numa empresa, se você erra, está despedido.

Sobre aquele professor exigente e duro que você achava cruel, você vai perceber que ele era um cordeiro, se comparado com seu futuro chefe. Antes de ansiar mudar o mundo e querer consertar os erros da geração de seus pais, cuide primdiro de limpar seu proprio quarto”.

Seria interessante lembrar também que, no antigo ensino primário, as promoções de alunos se consolidaram como permanente motivação para o professor e, igualmente, se tornaram parte integrante da cultura escolar. O número de alunos promovidos se caracterizava por um forte incentivo, pois pesava muito na classificação dos sprofessores, prncipalmente, nos concursos de remoção.

Ao mesmo tempo, a promoção de alunos marcava de maneira expressiva o status da professora, sobretudo das professoras das primeiras séries, pois eram as preferidas pelas famílias que iam matricular seus filhos no início do ano letivo.

Justamente, por tudo isso, a açodada suspensão das reprovações provocou séria desmotivação entre professores e se caracterizou, para os alunos, como autêncitaca impunidade. Não só o resultado de pesquisas atesta, mas também, uma simples observação poderá comprovar uma alteração estranha, mas nada surpreendente, no comportamento de alunos e professores, nas escolas onde se implantou de maneira inconsequente, a “progressão continuada”.

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