Quando chegam à escola, as crianças trazem vários tipos de comportamento consolidados, pois já assimilaram as experiências de seus lares e as influências de grupos atuantes, em sua comunidade, inclusive o costume de aceitar e de se submeter a toda sorte de sanções existentes, como controles de comportamentos sociais. Dessa forma, as diferenças individuais se impõem inevitavelmente. Uns aprendem depressa, outros mais devagar; ainda outros se recusam a aprender, também há aqueles que detestam o estudo ou tem preferências com relação às disciplinas; uns são tímidos, outros agitados, uns são revoltados, outros submissos, uns são indisciplinados, outros obedientes ou ainda, aqueles que ajudam os pais, em casa ou no trabalho.
Com toda certeza, pode-se afirmar que, sem repetência e reprovação, a escola incentiva a impunidade e os alunos se tornam irresponsáveis. Como prolongamento da educação no lar, no entanto, cabe à escola ensinar-lhes a assumir responsabilidade pelos seus atos e a analisar suas falhas. Como, certamente, os alunos vão errar em algum momento, (como todo mundo) é preciso então ensinar-lhes a lidar com o fracasso, para evitar que ele se torne algo destrutivo.
O que se pretende, pois, é diminuir os índices de repetência e reprovação, sem subterfúgios, como acontece em todo mundo.
Deve-se notar que todas estas atividades, subsistentes em qualquer sistema escolar, não descartam a possibilidade de haver diferenças essenciais entre as crianças que entram para a escola e a consequente existência de reprovação e repetência.
Além disso, pesquisas realizadas entre elementos das classes populares confirmam que a capacidade da escola em instruir e socializar é dificultada por não mais ocorrerem reprovações, na medida em que os alunos não se interessam e pouco se esforçam na ausência desse mecanismo, percebido como regulador das aprendizagens e dos comportamentos..Embora os especialistas suponham falta de capacidade das classes populares de analisar o princípio da não-retenção escolar, é essencial, evidentemente, que essa atitude seja respeitada, uma vez que as escolas públicas atendem, sobretudo, crianças oriundas das classes populares.
Aos que, por acaso, me acusarem de saudosista saibam que estou acompanhado de excelentes cúmplices.
Vale lembrar, escreve P. Demo,[1] que em Santa Catarina havia promoção automática, até o dia em que se realizou o processo de avaliação, com participação da comunidade, não só de educadores. Sobretudo os pais postaram-se contra, porque raciocinam de modo dito objetivo e realista: no mercado não há promoção automática, lá vence quem pode. “No quadro das desigualdades, a promoção automática desprepara para a vida, embora caiba em belas teorias educacionais”.
Bill Gates [2] também apontou certas incompatibilidades entre as práticas existentes em escolas e a real organização social vigente, nos Estados Unidos. “Em algumas escolas, o aluno não repete ano e tem quantas chances precisar até acertar e ser promovido. Isto não se parece absolutamente nada com a vida real. Numa empresa, se você erra, está despedido”.
Além de lembrar um tempo em que escolas e universidades eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado, Lya Luft,[3] salientou que reprovação, palavra assustadora para alguns moderníssimos pedagogos e que, em algumas escolas, nem deve ser usada, quando o prejudicial não é o termo, mas a negligência. “Tanto são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e compensa. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra”.
